A Província e o País

Parte da sociedade pernambucana, notadamente aqueles velhos senhores de engenho e usineiros falidos, tem um bruto orgulho do tal “Leão do Norte”, do Pernambuco “revolucionário’, de 1817 e 1824 (é claro que omitem que Frei Caneca era contra a abolição da escravatura, como todos os outros) e do quanto o estado era influente na política imperial. É risível ver que toda campanha publicitária institucional evoca esse passado e do quanto parte da intelectualidade local topa isso.

Quando vejo algo do tipo é impossível não comparar a nossa província (por mais que Pernambuco cresça mais do que o Brasil, por mais que ele seja um símbolo da recuperação do Nordeste, a verdade é que esse “milagre econômico” ainda é para uns poucos, e aos olhos do resto do país, o estado é irrelevante, para não dizer insignificante) com o poderoso São Paulo, que também se orgulha de suas raízes bandeirantes e do quanto se gabam de ser “a locomotiva da Nação”. Por conta dessa louvação desmedida por um passado que não representa tanto liberdade (os bandeirantes eram assassinos de índios, os revolucionários pernambucanos eram racistas) e pelas práticas políticas ainda presentes, assemelham-se bastante.

Digo isso porque o governo de Pernambuco, capitaneado por Eduardo Campos, do PSB (do qual é o presidente nacional), tido como o governador de maior aprovação no Brasil (80%, segundo o IBOPE), apontado por alguns cientistas políticos como provável presidenciável para 2018 (ou mesmo 2014) e que depois da sua absolvição do caso dos Precatórios (onde foi acusado, como secretário da Fazenda daqui, na época do terceiro governo de Miguel Arraes, seu avô, de ter feito um malabarismo financeiro com títulos estaduais e o BANDEPE) surgiu como alternativa política à sempre evidente aliança PSDB/PMDB/PFL (hoje DEM) que governou o estado por décadas a fio. Foi eleito governador, reelegeu-se, mas apesar da bandeira do Socialismo, que ele sabe muito bem ser difícil de hastear efetivamente por essas bandas, faz o que é prática política brasileira. Governo para poucos.

Mas, talvez por conta dessa imagem que ele criou, do administrador eficiente, jovem, que vai contra o corporativismo e fisiologismo tão característico das relações Governo x Parlamento desde o início da Nova República, parte da Imprensa Nacional sequer cita as arbitrariedades praticadas pela PMPE na repressão às manifestações estudantis contra o aumento das passagens.

Além disso, há a total (TOTAL mesmo) irrelevância das notícias locais para a grande mídia. A não ser que apareça a seca, um avião caia, ou algum time do Sudeste/Sul ganhe um título contra um time daqui, a nível nacional, somos de uma invisibilidade gigantesca. E mesmo no que diz às notícias positivas (quem mais no Brasil sabe que Recife é o maior polo de softwares do Brasil, segundo maior polo médico do País, por exemplo?), contudo é emblemático ver que a violência da PM daqui, tal como a de SP, é sumariamente ignorada.

Bandeira de campanha do então candidato, a redução das tarifas do transporte metropolitano (vide vídeo aqui ), foi solenemente ignorada e hoje temos no Recife uma das passagens mais caras do país (a mais “barata” é R$2,15 e a mais cara é R$3,30), os sindicatos, a maioria deles ligados ao PT e PSB, estão anestesiados e são incapazes de apoiar o movimento estudantil, que foram traídos (também apoiaram as duas candidaturas do governador) e agora, ao menos uma parte, começa a acordar de sua letargia e ver que o belo moço de olhos verdes acaba agindo como os pares que ele tanto criticou.

E por conta dessas manifestações, foi duramente reprimida, chegando ao ponto de a PMPE jogar bombas contra a Faculdade de Direito do Recife (área de jurisdição federal) e a Reitoria da UFPE sequer defender tal jurisdição. Obviamente que muitos estudantes, no protesto de ontem (talvez o mais violento), naquele afã de mostrarem-se revolucionários e anarquistas, acabaram provocando os policiais com tijolos arrancados do calçamento, acabam complicando as coisas, mas nada, nada justifica um

foto de André Nery – Folha de PE

policial dar uma gravata numa menina de 20 anos de idade, (segundo relatos que apurei com conhecidos, ela estava tentando dar uma flor pra um motorista que estava preso no engarrafamento – como parte dos estudantes que também estavam distribuindo flores aos policiais), mas, tirando os jornais locais e a repercussão que teve tais fotos nas redes sociais, qual telejornal, portal de notícias nacional mostrou isso?

foto de André Nery – Folha de PE

Quando um governo que se diz “esquerda” e tão defensor das liberdades e tudo o mais, mostra-se tão inapto a algo tão simples (a negociação), que empurra um aumento de passagens goela abaixo da população (a reunião que definiu tal aumento ocorreu a portas fechadas, sem aviso prévio, na manhã da sexta-feira passada, o anúncio saiu às 8h da manhã, já para tentar desmobilizar os protestos) e que, no final das contas, acaba servindo a uns poucos, questiono a legitimidade de tal governante, que manda espancar gente que apoiou sua eleição e reeleição…

Talvez ele esteja se apoiando na invisibilidade da Província, frente ao País, e ter a certeza de que no seu curral eleitoral, à maneira dos velhos coronéis do século passado, só ele quem manda.

Sobre o autor

Alisson da Hora
Álisson da Hora, Mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, vive às turras com sua própria literatura, derivando pelas ruas do Recife e adjacências. Escreve no seu blog Todo Anjo é Terrível (www.pontispopuli.blogspot.com) e xinga muito no twitter @alissondahora
  • Daniel Barros

    O fino da letra! A cutucada certeira numa ferida aberta, mas ignorada!

  • http://twitter.com/doalf @doalf

    Excelente e irretocável texto, Alisson, meu véi. É o tipo de abordagem ponderada que eu tanto tenho pedido nas redes sociais. Sobre o comentário do colega Adao Braga, devo discordar parcialmente, ou tentar uma retificação pontual (para que a fala, pra mim, tenha a correção que deve ter).

    NESSE modelo atual de Estado (patriarcal, paternalista, viciado, corrupto e outras tantas palavras), de fato, a polícia não só deve, como é a mão opressora que age no combate à "desordem social". Mas a questão aqui não é uma assertiva e sim um conjunto de perguntas:

    Que polícia é essa?
    Que Estado é esse?
    O que é ordem? E desordem? Quais valores atravessam a significação dessas palavras? E a questão da "normalidade" e, posteriormente, "normatividade"?

    Falo isso pq me deparo com essas perguntas cotidianamente no estudo do Direito.

    Fato é que se o vértice que polariza essa análise for o de um estado democrático de direito e do respeito a Constituição Federal e à dignidade humana (princípio supremo da ordem Estatal), então estaremos diante de um bocado de incoerências, inconsistências e paradoxos.

    Infelizmente. :/ No fim, a democracia brasileira é uma farsa refinada, mas farsa.

  • http://www.adaobraga.com.br Adao Braga

    A policia deve ser a mão do Estado, na ação contra a desordem social. Mas, procede a reclamação de que se a ação da policia tal como aconteceu e descrito, tivesse sido em Estado com administração contrária, e sem alinhamento com o Governo Federal, estariam em todos os grandes jornais, portais, revistas e telejornais nacionais.

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