Este parágrafo me faz lembrar de ti, meu amor…

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Pode ser apenas mais um clássico sintoma do andar dos anos vividos, mas tenho me pegado fazendo comparações entre as coisas de minha infância e as atualidades. Não como faziam os velhos de antes, mas como fazem os desorientados de hoje. Se antes frases para esse tipo de pensamento fossem sempre “No meu tempo não era assim…” ou “Onde este mundo vai parar?”, hoje a atitude geral é a de espanto mudo. Contestar uma novidade é quase que pedir o rótulo de retrógrado, direitista, além de outros istas menos simpáticos.

Hoje, enquanto lia um livro qualquer da pilha do bidê – minha “biblioteca funcional” – me veio a imagem do eu pequeno, lendo tudo e qualquer coisa que aparecesse ou que a bibliotecária da cidade de Salto, interior de São Paulo, me permitisse; Dumas pai e filho, Júlio Verne, Irmãos Grimm, fantasias das Mil e Uma Noites que foram sucedidas por volumes cada vez mais e mais grossos, partindo do Agatha Christie que me apresentava Hercule Poirot, Connan Doyle e a Rua Baker, Poe… Logo apareceram J. M. Simmel, Capote, Veríssimo (o pai, claro) e toda aquela gama de autores nacionais ou “importados” que continuam fazendo minha alegria. Fora bibliotecas, comprar livros em sebo ainda me diverte e aqui vou lhes dizer um dos motivos, senão o motivo primordial: gosto do leitor que risca seus livros. É uma afronta aos puristas, mas aquelas primeiras páginas assinadas pelo antigo zelador do volume que agora quem cuida sou eu, sublinhados, riscados indignados, notas nas margens laterais que variam do estudo de estilo do autor às notas apaixonadas — “Este parágrafo me faz lembrar de ti, meu amor…” — , me trazem um senso de irrealidade palpável, remetendo meus pensamentos não ao conteúdo, mas sim à pessoa. Quem era? Por quê isso foi importante? Casaram-se, foram felizes?. Maria Adelaide J… 1978, por onde anda você? A vida lhe sorriu?

Aí entra a tal comparação. Com a literatura tornando-se a cada dia que passa mais e mais digital – isso quando se lê – perco um prazer para ganhar… Espaço! Posso carregar milhares de livros em dispositivos mínimos, mais baratos que alguns livros em papel. Não sou absolutamente contrário à tecnologia, mas me pergunto onde irão parar as notas de rodapé escritas apressadas em meio a manchas de Toddy, arrastadas pelo papel quando alguém limpou os farelos de bolacha. Blocos de nota eletrônicos, que se perdem a cada nova formatação, não substituem de maneira alguma garatujas mal-traçadas com caneta Bic…

O meio não importa, o conteúdo sim. Porém aquela relação íntima com um objeto físico que vá além do que o autor um dia supôs, essa sim está fadada ao desaparecimento. Como saberei o que aconteceu à Maria Adelaide J… 1978, se não existirem outras Marias e Josés para complementarem seus pensamentos desconexos, quebra-cabeça oculto nas janelas do tempo impresso?

About the author

Editor, autor e palpiteiro. @David_Nobrega

2 Comments

  1. Noigandres disse:

    Embaraçado entre calar-me e falar o que sinto… Vamos lá! Te agradeço por, em meio a esse turbilhão de insanidade a escorrer sob os pés da massa, trazeres à tona essa refelexão.
    Carlos Rocha

    Responder

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