Confesso que quando alguns assuntos pipocam nas redes socias eu até agradeço por estar com a vida atribulada me obrigando a estar fora delas para não ter quer que expressar minha opinião, mas como muitos conhecem minha história e meus envolvimentos com determinados assuntos minha fuga não dura muito tempo e logo, de alguma forma, alguém sempre acha uma forma de me encontrar e pedir minha opinião sobre determinada polêmica.
Na última sexta feira, 11/01, Aaron Swartz, programador, empreendedor, um dos criadores do site Reddit, do Creative Commons, do sistema RSS e ativista contra o Sopa, com apenas 26 anos, supostamente cometeu suicídio em Nova York, no apartamento em que morava com sua namorada há apenas 2 anos.
A genialidade e inteligência de Aaron são indiscutíveis. Porém, em 2011, ele foi indiciado, acusado de hacker, ao realizar downloads ilegais e não autorizados de documentos, textos e artigos acadêmicos do Journal Storage (JSTOR) e do Massachussets Institute of Technology (Mit) com a intenção de distribuí-los. O processo ainda estava em julgamento e, se considerado culpado, Aaron poderia ter que cumprir até 35 anos de cadeia além de ter que pagar o equivalente a quase R$ 2.000.000 em multas. A família culpou os federais e o Mit pelos exageros e pela intimidação, o que teria levado Aaron a um profundo estado depressivo que culminou com seu suicidio. O JSTOR decidiu não dar prosseguimento à denúncia.
A polêmica e especulações tinham seus ingredientes básicos principais: as circunstâncias e a motivação da morte de Aaron e suas atividades ilegais como ativista.
Tudo leva a crer na hipótese de suicídio. Aaron foi encontrado morto, com uma corda no pescoço e o laudo médico constatou morte por enforcamento. Ele também teria deixado um curioso “testamento” online entitulado “If I get hit by a truck…”, não datado, deixando a seu amigo Sean B. Palmer a responsabilidade de dar continuidade a seus projetos e administrar sua vida digital. Curiosamente assina: “I’m not dead yet!“, mas no penúltimo parágrafo ele pede que a página seja atualizada, então há uma grande possibilidade de Sean ter postado a frase como uma homenagem ao amigo e parceiro.
Se como um gênio programador e empreendedor eu diria, sem titubear, que a maioria esmagadora concorda com a grande contribuição de Aaron à tecnologia e à internet, sobre seu ativismo pela internet, eu me sinto na obrigação de fazer algumas ressalvas.
Eu enxergo o ativismo como um bem necessário à população, principalmente no que diz respeito à união de todos quando se trata de uma forma de manifestação ou protesto por uma causa de interesse comum, seja ela qual for, mesmo que ela interesse a apenas uma parcela pequena da população e mesmo que a maioria não concorde com ela. Isso significa que, se algo é de interesse de apenas duas pessoas, é de pleno direito dessas duas únicas pessoas manifestaram-se a favor de sua “causa solitária”, desde que não prejudique todas as demais. Isso para mim é democracia e liberdade de expressão. O calcanhar de Aquiles do ativismo está justamente na militância através de meios violentos que incluem até a afronta aberta à Lei e à prática de crimes ou de contravenções penais.
Voltando ao caso Aaron, muitas foram as mensagens de lamentações, apoio e solidariedade a Aaron, a sua família, à comunidade ativista, tecnológica e cibernética. Muitos expressaram sua revolta contra o governo americano e suas leis, contra os federais e as instituições públicas e privadas, principalmente contra o Mit mas, a frase proferida e comunicada à imprensa por Carmen Ortiz, juíza do distrito de Massachusetts, me fez refeletir muito sobre o caso e me ajudou a fechar minha conclusão pessoal: “Roubo é roubo, não interessa se você usa um computador ou um pé-de-cabra, e se você rouba documentos, dados ou dólares”.
Perdemos um gênio, uma mente brilhante que, ao que tudo indica, resolveu dar cabo de sua própria vida por não ter suportado as consequências de atos que, talvez, no calor do ativismo e de sua juventude, não tivesse dimensionado de forma adequada. Realmente é uma grande perda e eu sinto, todos nós sentimos muito por isso, isso é um ponto.
A questão que todos parecem querer ignorar, é o “tratamento”. Aaron está sendo tratado como herói e vítima sendo que, supostamente, até o primeiro momento e até que se prove o contrário, foi ele quem optou pela fim de sua própria vida. Certamente, se a situação fosse a mesma e mudássemos a personagem e fosse apenas um rapaz ativista nerd mas sem tanta importância e vulto quando Aaron, seria apenas mais um caso de um hacker preso pelos federais” e jamais estaria sequer respondendo em liberdade. Para quem pensa que isso é exclusividade brasileira…
Não, eu não acho que quem roube um litro de leite para alimentar seus filhos tenha que ter a mesma pena ou tratamento de quem se apodere do dinheiro público ou assalte um banco, mas para que isso seja diferente, é necessário que as leis sejam modificadas, MAS não modificamos as leis transgrendido-as. E eu concordo que leis específicas para o ambiente cibernético devam ser criadas mas, essa discussão vem desde “1900 e guaraná de rolha” então, enquanto não se chega a uma conclusão, nada impede que as nossas leis atuais do mundo “real” sejam aplicadas aos crimes cometidos na internet.
Eu não concordo com qualquer atividade ilegal como forma de protesto e, MUITO MENOS, como alegação e justificativa para ativismo. Chego, em alguns momentos, a comparar isso a uma forma de “terrorismo light”. Me sinto vivendo num filme de Robin Hood onde os hackers roubam os arquivos e os entregam à população. Eu também não concordo com muitas coisas, com preços que são cobrados por livros e músicas digitais , por exemplo, mas vocês já ouviram falar em boicote? Claro que já mas, para muitos, boicotar não é “cool”. Mas eu posso garantir a vocês que é possível fazer ativismo, incluindo ativismo cibernético, de forma LEGAL, “dentro dos conformes da Lei“, mas toda vez que eu leio “ativistas foram responsáveis por roubos de dados”, meu coração se parte todo em migalhas e eu tenho vontade de chorar… Isso não é ativismo. Anonymous, por exemplo, não é ativismo. É crime.
Eu estou prometendo a mim mesmo ainda escrever sobre hacktivismo, mas é assunto polêmico que envolve parte da minha história então estou “empurrando com a barriga”, aguardem (risadas).
Eu consigo perceber que o número de crianças e adolescentes prodígios é cada vez maior e é uma pena que, muitas vezes, tanta energia e talento estejam sendo desperdiçados e canalizados de forma errada principalmente vitimados pelos modismos e pela necessidade das pessoas pertenceram a um grupo, se sentirem importantes e queridas. As redes sociais favorecem o que chamamos de fama instantânea e na internet isso facilita todo o processo. Eu não sei o que está acontecendo e onde está o erro, mas eu vejo uma mudança de valores, uma falta de humanidade, de respeito, de educação e até de limites. Eu vejo muito vigor e capacidade que, bem direcionados, poderiam fazer destes jovens verdadeiros “novos Aarons”. Eu sei que é apenas um sonho, mas talvez um deles possa ler isso, ou talvez algum pai, eu AINDA tenho esperanças…
Créditos da imagem: MaverPix (2009)












